. A Holanda é um dos países mais avançados na área da saúde. O que é o sucesso deste sistema?

Em 2016, a Holanda foi eleita, pela sexta vez, o país que tem o melhor sistema de saúde, em um ranking de 35 países europeus do Euro Health Consumer Index. Alguns dos indicadores nos quais a Holanda se destacou foram direitos dos pacientes e acesso à informação, acesso ao cuidado em geral, pacote básico de seguradoras, listas de espera, resultados e prevenção. Além disso, para os coordenadores da pesquisa, a excelente avaliação da saúde holandesa pode ser explicada pelo fato de que na Holanda os profissionais de saúde e os pacientes estão mais envolvidos em importantes decisões do setor do que em outros países. É um sistema que garante a todos o acesso à saúde, ancorado profundamente no principio da solidariedade por meio dos seguros médicos.

Em 2006, a Holanda reformou o sistema de saúde. Desde então, o sistema é designado como um sistema de competição gerenciada. Uma mistura de incentivos do mercado com garantias públicas. Isso significa que os clientes têm o poder de escolher a cada ano outra seguradora de saúde. Eles também são livres para escolher qualquer fornecedor de saúde, desde que o fornecedor tenha um contrato com a empresa de seguro. As seguradoras são incentivadas a competir e obter mais clientes. Elas podem fazer isso negociando preços menores e maior qualidade dos fornecedores de saúde. Os fornecedores são responsáveis pelo desempenho dos serviços contratados pelas empresas de seguros. Podem perder seus contratos se não fornecerem os cuidados com uma boa qualidade e um preço baixo.

Dentro do sistema o governo é responsável pelas políticas de prevenção e atua como regulador para a acessibilidade, a qualidade e a supervisão do mercado de saúde e o conteúdo do pacote básico relativamente amplo na Holanda.

. En “Health Valley” (na cidade de Nijmegen) são incubados startups de diferentes países. Podemos dizer que a Holanda quer se tornar o país mais inovador do mundo em saúde?

Na verdade, o que mais nos estimula é agregar valor para o paciente (value based healthcare). E isso nos estimula a seguir investindo em educação, pesquisa & desenvolvimento (P&D) e inovação. Inclusive, startups e a internacionalização delas. Na Holanda, acreditamos que a inovação tecnológica médica é indispensável para manter a saúde acessível para todos e para obter uma economia de custos. Além disso, não é por acaso que a Holanda é considerada o terceiro maior exportador mundial de produtos de tecnologia médico-hospitalar. Também investimos muito em soluções técnicas de menor complexidade. Tanto a tecnologia de alta complexidade quanta a tecnologia de menor complexidade podem melhorar a qualidade da vida e podem ter o mesmo impacto.

Assim, acreditamos muito em soluções de e-Health. E para estimular que e-Health faça cada vez mais parte da realidade dos holandeses, o Ministério de Saúde, Bem-Estar e Esporte estabeleceu metas em 2014 para serem cumpridas em cinco anos. As metas têm como foco principal idosos, pacientes com doenças crônicas e pessoas que recebem cuidados profissionais em casa. Assim, por exemplo, no final de 2015, mais ou menos 45% dos idosos vulneráveis e pacientes com doenças crônicas faziam eles próprios medições (peso, pressão, quantidade de açúcar no sangue) independentemente. A meta é de atingir 75% em 2019.

Tambein para promover o desenvolvimento do e-Health, o Ministério organizou, no fim de janeiro deste ano, o e-Health Week para compartilhar e mostrar exemplos de e-health no país inteiro: empreendedores, pesquisadores e cidadãos comuns pudessem interagir com produtos de e-health, e, assim, gerar mais conhecimento sobre o tema. Dessa forma, as pessoas podiam, por exemplo, visitar casas inteligentes equipadas com as mais recentes inovações voltadas a idosos como sensores, domótica etc., no sentido de que vivam com independencia. Durante essa semana também houve workshops para poder administrar e analisar seus dados médicos por meio de aplicativos. Outro exemplo enriquecedor foi que todos os Centros Médicos Universitários promoveram atendimento por videoconferência de saúde primária, ou seja, a semana se tratava de um aspecto muito amplo das diversas aplicações de e-health. Foi um ótimo exemplo de cooperação e de inclusão.

. Empresas ligadas ao e-Saúde recebe apoio do governo?

Todas as empresas podem contar com programas de apoio do governo holandês. São programas para empresas individuais ou para parcerias público-privadas. Além disso, nós apoiamos, mediante nossos postos diplomáticos no mundo, empresas holandesas de qualquer porte que queiram iniciar ou expandir negócios e parcerias no mercado global. Trabalhamos para fomentar a cooperação multilateral, identificando onde há espaço para troca de conhecimento e desenvolvimento de soluções para desafios em comum – bem como diz a logomarca Health~Holland: Shared Challenges Smart Solutions. Exemplo disso é a missão que trouxemos para um programa de seis dias no Brasil durante a semana da Hospitalar. Foram 26 organizações expondo no estande Health~Holland. A missão foi liderada por nosso vice-ministro de Saúde, Bas van den Dungen, que acompanhou eventos e reuniões com lideranças do setor de saúde.

.Quais são os planos dos Países Baixos na América Latina? planejam desenvolver acordos com países da região? 

Luiz Bonino, Chief Technology Officer FAIR data no Dutch Techcentre for Life Sciences (DTL), esteve no Brasil para HIMSS e apresentou um projeto da iniciativa de Infraestrutura de Pesquisa em Saúde (Health-RI). En ele afirmou que para o Brasil e outros países latino-americanos o conceito de integração de dados e a possibilidade de compartilhar registros médicos são de enorme valor.

O setor holandês de Ciências da Vida & Saúde deseja continuar a trabalhar de modo estruturado com a América Latina para juntos aperfeiçoar a saúde. Especialmente dentro do Brasil e da Colômbia, oportunidades importantes de colaboração foram encontradas por meio de estudos de mercado, fact-finding missions e múltiplos contatos entre stakeholders de alto nível do setor de saúde. Tanto a abertura de áreas rurais através de eHealth e saúde móvel (mobile health) quanto lidar com o desafio comum do envelhecimento de suas populações são especialmente vistos como territórios férteis para o trabalho conjunto.

Após atividades bem-sucedidas na Colômbia e no Brasil, a América Latina foi apontada como uma região altamente interessante para as organizações holandesas de saúde. Por essa razão, uma nova plataforma será inaugurada pela Task Force Health Care (TFHC) em junho no Brasil.

As atuais relações do setor de saúde da Holanda com os dois países latino-americanos resultaram de grandes insights sobre as oportunidades na região. Contudo, um forte crescimento nas conexões móveis e adoção de TIC no México e no Peru podem resultar em um maior interesse e participação de players holandeses em e-Health também nesses países.

Atualmente, inúmeras organizações holandesas querem reforçar a presença na América Latina, e não só no Brasil e Colômbia, mas iniciar parcerias também em países como Argentina, México, Bolívia, Chile, Panamá e Peru.

. Há intercâmbio entre grupos de pesquisa no âmbito de projetos conjuntos de pesquisa? 

Sim, existem varios no Brasil. Para começar, houve quase 1500 estudantes brasileiros estudando na Holanda, dos quais 33% fizeram um estudo relacionado à saúde. Quando se trata de pesquisa fundamental, pensamos no Centro de Pesquisa sobre o Genoma Humano e Células-Tronco da Universidade de São Paulo (USP), que já têm uma colaboração extensiva com o Centro Médico da Universidade de Leiden e o Instituto Europeu de Pesquisa na Biologia de Envelhecimento, localizado na Universidade de Groningen.

A Universidade de Groningen também tem uma cooperação com o Hospital das Clinicas da USP em Medicina Nuclear. Já a Universidade de Leiden conduz uma cooperação com o Hospital Albert Einstein, em São Paulo, para estudar a relação entre o metabolismo e alimentação. Essa mesma universidade têm vários projetos com FrioCruz, que vão de Big Data até NeCEN-Microscópios.

No entanto, não é somente cooperação acadêmica, mas também há vários projetos de cooperação governamental e empresarial. Um ótimo exemplo é a multinacional holandesa Philips que junto com o Governo do Estado da Bahia criou 12 centros de diagnósticos e imagens espalhados pelo estado. Foi a primeira e maior Parceria Público-Privada que o Brasil já teve em diagnósticos e imagens.

O Instituto de pesquisa aplicada holandês, o TNO, é parceiro da SESI (Serviço Social da Indústria) em Minas Gerais (MG), para criar um centro de Pesquisa e Desenvolvimento voltado para Ergonomia.

O Centro de reabilitação Sophia, que é um polo de conhecimento quando o assunto é reabilitação, tem como um dos objetivos dar oportunidade aos desenvolvedores de tecnologia e/ou universidades para ter uma interação direta com os usuários finais dos seus produtos. Uma parceria entre a Universidade de Ciências Aplicadas de Haia e o Centro de reabilitação brasileiro, Rede SARAH, é também um projeto de cooperação que já existe em Brasília. Esses são alguns exemplos.

Na verdade, o potencial para desenvolver novas parcerias é realmente promissor.