Como está evoluindo a saúde digital no Brasil e na América Latina? O que está acontecendo com o discurso sobre o potencial transformador da IA? De cara para a HIMSS Las Vegas 2026, Felipe Cezar Cabral, CMIO do Hospital Moinhos de Vento do Brasil e diretor médico e de relações institucionais da ABCIS, antecipa detalhes sobre sua participação no Brazil Summit e recomenda onde colocar o foco durante o maior evento de saúde digital do mundo.
Por Felipe Cezar Cabral*
A saúde digital no Brasil atravessou, no último ano, uma inflexão silenciosa, porém estrutural. Saímos da fase de observação e planejamento — marcada por pilotos, debates conceituais e curiosidade tecnológica — e entramos definitivamente na fase de execução. A inteligência artificial deixou de ser pauta futurista para tornar-se agenda executiva. Conselhos administrativos discutem ROI de algoritmos. Corpos clínicos debatem governança de dados. A pergunta já não é mais “se” vamos adotar IA, mas “como” e “com que impacto mensurável”.
Esse amadurecimento, no entanto, ocorre em paralelo a um fenômeno global: o hype. O discurso sobre o potencial transformador da IA segue superdimensionado no curto prazo. A promessa de revolução cognitiva instantânea muitas vezes ignora integração sistêmica, sustentabilidade econômica, padronização de dados e governança clínica. O risco não é tecnológico — é estratégico. Instituições que confundirem entusiasmo com transformação estrutural poderão transformar inovação em centro de custo.
Da experimentação ao impacto
No Brasil, a maturidade mais visível da IA está hoje na dimensão administrativa e operacional. Automação de backoffice, otimização de revenue cycle, qualificação de codificação e redução de glosas já apresentam ganhos tangíveis. Modelos preditivos vêm sendo utilizados para melhorar fluxo assistencial e eficiência operacional. A telemedicina, impulsionada pela pandemia, consolidou-se como parte estrutural do cuidado, não mais como exceção regulatória.
Mas talvez o avanço mais relevante do último ano não tenha sido técnico — foi cultural. A IA passou a integrar a agenda médica. Ainda é verdade que, em muitos hospitais, a pauta digital nasce na TI. Porém cresce o interesse genuíno do corpo clínico, e isso altera completamente a dinâmica de adoção. A próxima fase da transformação digital brasileira dependerá da migração da liderança tecnológica para dentro da governança clínica. Sem médicos protagonizando a discussão, não há escala sustentável.
O verdadeiro diferencial competitivo, portanto, não será quem testa mais soluções, mas quem mede melhor. IA que não gera impacto clínico ou financeiro mensurável é experimento, não estratégia.
Governança como infraestrutura
No Hospital Moinhos de Vento, essa compreensão levou a um posicionamento claro: tecnologia é infraestrutura estratégica, não vitrine de inovação. A prioridade digital está diretamente conectada a melhorar processos, qualificar o cuidado, reduzir custos e aumentar a segurança do paciente. A IA é vista como meio para atingir esses objetivos, não como fim em si mesma.
Estruturamos comitê formal de IA, política institucional, avaliação ética e classificação de risco para projetos. Escalar tecnologia sem governança é acelerar incerteza. A maturidade digital começa quando a inovação deixa de ser entusiasta e passa a ser regulada internamente.
Como liderança médica na transformação digital, acredito que o papel do CMIO torna-se central nesse momento histórico. A IA não pode ser delegada exclusivamente à área técnica. Ela impacta decisão clínica, responsabilidade ética, segurança assistencial e sustentabilidade institucional. Escalar IA exige liderança clínica, não apenas competência tecnológica.
O hospital como plataforma
O próximo capítulo da transformação digital não se limita à eficiência interna. Ele redefine o próprio modelo de negócio hospitalar. O hospital do futuro não será apenas um prestador de serviço assistencial físico. Será uma plataforma digital de saúde.
Isso significa ampliar fronteiras: serviços digitais, analytics, produtos tecnológicos, soluções B2B, integração de dados estruturados para pesquisa multicêntrica, novas formas de geração de receita baseadas em conhecimento e tecnologia. A IA, quando bem implementada, não apenas melhora o cuidado individual — transforma a instituição em produtora de evidência científica e em agente ativo do ecossistema digital.
Essa visão é especialmente relevante em um cenário de margens pressionadas e modelos de remuneração ainda pouco orientados a desfecho. Tecnologia passa a ser instrumento de sustentabilidade econômica e expansão estratégica.
Regulação como ativo estratégico
Diferentemente do que muitos imaginam, o ambiente regulatório brasileiro não é obstáculo estrutural à inovação. O debate sobre IA caminha em ritmo adequado. A Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), longe de ser barreira, tornou-se vantagem competitiva para instituições que internalizaram governança de dados como ativo institucional.
Hospitais que estruturaram compliance, segurança e padronização estão mais preparados para absorver IA de forma segura. Governança de dados não é burocracia — é infraestrutura digital.
O SUS Digital, se bem executado, pode ser catalisador de redução de desigualdades tecnológicas e integração nacional. Mas sua efetividade dependerá da capacidade de execução técnica, interoperabilidade e continuidade política. O risco não está na visão — está na implementação.
O que buscar no HIMSS: do hype ao ROI
No cenário internacional, o interesse não está mais em pilotos isolados. A pergunta central é: onde a IA já está gerando ROI clínico e financeiro consistente?
No HIMSS Global Health Conference & Exhibition, o foco deve estar em casos em que algoritmos reduziram tempo de permanência hospitalar, otimizaram fluxo em pronto atendimento, apoiaram decisão clínica com redução de eventos adversos e melhoraram performance operacional com impacto direto em custo e receita.
Também são estratégicos os modelos em que IA está integrada ao prontuário eletrônico e ao fluxo assistencial, automatizando tarefas administrativas e liberando tempo médico para cuidado. Tecnologia que permanece paralela ao workflow tende a fracassar. Tecnologia integrada ao processo assistencial transforma-se em alavanca institucional.
Outro ponto crítico é a estruturação de data lakes clínicos padronizados, capazes de suportar pesquisa multicêntrica e análises preditivas em escala. A capacidade de organizar dados assistenciais de forma segura e interoperável é hoje diferencial competitivo global.
Brazil Summit: escala, liderança e sustentabilidade
No Brazil Summit, o debate em que participarei, “Do hype ao impacto: perspectivas do CMIO e do CIO sobre a expansão da IA na área da saúde”, sintetiza o desafio atual. Escalar IA exige três elementos simultâneos: governança, liderança clínica e sustentabilidade financeira.
O Brasil possui competência técnica, diversidade populacional, sistema público universal e criatividade institucional que o colocam em posição singular. Não somos meros importadores passivos de tecnologia. Temos capacidade de dialogar de igual para igual com ecossistemas internacionais.
Entretanto, ainda enfrentamos desafios estruturais: interoperabilidade fragmentada, instabilidade política e financiamento inconsistente. O talento existe. O que precisa amadurecer é a estratégia sistêmica.
Brasil no cenário global
A diversidade populacional brasileira oferece campo único para desenvolvimento e validação de soluções em escala real. O modelo híbrido público-privado cria complexidade, mas também gera aprendizado adaptativo. Nossa criatividade e capacidade de inovação frugal podem tornar-se vantagem competitiva internacional.
O maior risco é a fragmentação: múltiplas iniciativas desconectadas, ausência de padronização e descontinuidade política. O maior potencial é transformar tecnologia em instrumento simultâneo de redução de custo, melhoria de qualidade e criação de novos negócios.
O hospital-plataforma não é conceito futurista — é necessidade estratégica.
A próxima década não será definida por quem adota mais IA, mas por quem consegue integrá-la ao cuidado com responsabilidade, liderança clínica e visão econômica. O Brasil já demonstrou que pode absorver tecnologia de ponta. O desafio agora é escalar com maturidade.
Se a fase anterior foi marcada por curiosidade tecnológica, a atual exige disciplina estratégica. A pergunta que devemos nos fazer não é o que a IA pode fazer, mas o que estamos preparados para medir, governar e sustentar.
* CMIO do Hospital Moinhos de Vento e Diretor Médico e de Relações Institucionais da ABCIS (Associação Brasileira de CIOs em Saúde)
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