Executivos de hospitais, CIOs e especialistas debateram em Las Vegas como IA, dados e inovação estão redefinindo estratégias e modelos de cuidado no sistema de saúde brasileiro.
Por Paula Penedo e Daniela R. Blumenthal
Durante o Brazil Summit, realizado dentro da HIMSS Global Health Conference & Exhibition 2026, líderes do setor de saúde brasileiro se reuniram em Las Vegas para discutir como inteligência artificial, interoperabilidade e transformação digital estão redefinindo o futuro da assistência em saúde no país.
O encontro reuniu executivos hospitalares, CIOs, CMIOs e especialistas em tecnologia para compartilhar experiências práticas e debater os desafios de implementar inovação em escala nas organizações de saúde.
Sob o título “O Brasil na vanguarda da inovação em saúde: a IA como catalisador”, o Brazil Summit integrou a programação internacional do evento, considerado um dos principais fóruns globais para discutir tecnologia, inovação e gestão em saúde.
Ao longo de seis painéis, executivos de hospitais, operadoras, empresas de tecnologia e especialistas compartilharam experiências práticas e discutiram desafios para escalar inovação.
Se em anos anteriores o debate era dominado pelo potencial das tecnologias emergentes, a mensagem predominante nesta edição foi clara: o momento agora é de execução e geração de valor real para pacientes, profissionais e organizações.
Na abertura da sessão, Mariano Groiso, advisor da HIMSS para a América Latina, destacou o papel crescente da região no cenário global de saúde digital e a relevância do Brazil Summit como espaço de conexão entre experiências brasileiras e o cenário internacional.
Liderança hospitalar e visão estratégica para o futuro da saúde
No primeiro painel, moderado por Alex Vieira, CIO e superintendente de TI, inovação e transformação digital do HCor, os executivos destacaram que o avanço da inovação em saúde depende cada vez mais de liderança institucional alinhada à estratégia digital das organizações.
Mohamed Parrini, CEO do Hospital Moinhos de Vento, enfatizou a importância da transformação organizacional para acompanhar a evolução tecnológica. “O primeiro risco é não conhecer as oportunidades. O meu convite para os profissionais de TI é mostrar como a tecnologia irá fazer parte do rol de oportunidades e gerar valor para as suas empresas”.
Por sua vez, Jader Pires, CEO da Santa Casa de Porto Alegre, destacou que hospitais enfrentam o desafio de equilibrar inovação, eficiência operacional e sustentabilidade financeira. “Acredito sinceramente que precisamos resolver fluxos, processos e condensar as tecnologias para que a gente consiga avançar com muito mais eficiência do que temos hoje. Atualmente, as operadoras estão em vantagem em relação aos hospitais quando se trata de dados”.
Já Bruno Borghi, presidente da Associação Brasileira de Startups de Saúde (ABSS), ressaltou o papel crescente do ecossistema de startups na inovação do setor e a entrada em uma fase de maior maturidade em que as soluções precisam demonstrar valor clínico e econômico. “Nós da ABSS, com os nossos parceiros, temos que tratar isso, para as instituições, para os associados, entender quais as dores reais das instituições para oferecer as soluções ideais”.
CIOs e CMIOs discutem o desafio de escalar a inteligência artificial
No segundo painel, especialistas discutiram como líderes clínicos e tecnológicos podem trabalhar de forma integrada para implementar inteligência artificial em larga escala.
Com moderação de Alex Julian, CIO do Hospital Sírio-Libanês, a discussão abordou temas como governança e segurança da inteligência artificial, impacto clínico, escalabilidade tecnológica e integração entre equipes médicas e de tecnologia.
Os especialistas destacaram que, apesar do entusiasmo em torno da IA, o desafio atual está em transformar iniciativas experimentais em soluções escaláveis e sustentáveis dentro das organizações.
Felipe Cezar Cabral, CMIO do Hospital Moinhos de Vento, destacou a importância da estruturação dos dados. “Dados geram informação, o conjunto de informação gera conhecimento, e o conjunto de conhecimento gera inteligência. Se você não tem dados organizados, você não vai conseguir chegar na inteligência”, advertiu.
A adoção das novas tecnologias, no entanto, ainda enfrenta certa resistência por parte de médicos mais experientes. Bianca Pascual, CMIO da Oncoclínicas & Co, reforçou a necessidade de governança clínica. “Para que a IA gere impacto real, médicos precisam participar da construção das soluções. Eu tenho um pouco de dúvida se eles gostam de ouvir a sugestão da IA para dizer que estavam certos ou para utilizá-la como direcionamento”, questionou.
Já Rosivan Rodrigues, diretor de Engenharia, Dados e Arquitetura Corporativa da DASA, destacou que a escalabilidade depende da infraestrutura de dados. “Sem dados estruturados e governança da informação, qualquer iniciativa de IA terá dificuldade de gerar valor em escala.”
Os especialistas também ressaltaram que, com o uso crescente de ferramentas digitais, os médicos precisam desenvolver capacidade crítica para avaliar quando e como a tecnologia agrega valor à prática clínica.

Agentic AI e a transformação da comunicação com pacientes
Um dos casos práticos apresentados foi o programa Cuidar+, do Grupo Santa, desenvolvido em parceria com a AWS, que utiliza inteligência artificial para integrar canais de comunicação com pacientes.
Na conversa mediada por Jacson Venancio de Barros, especialista em saúde da Amazon Web Services (AWS), o CIO do Grupo Santa, Rubens Barreto, explicou como a instituição utilizou inteligência artificial agêntica (Agentic AI) no Amazon Connect para combinar diversos canais de atendimento em uma única plataforma.
Segundo Barreto, a solução permitiu integrar 30 números de WhatsApp em um único canal inteligente, com agentes autônomos capazes de responder pacientes e apoiar operadores em tempo real, gerando ganhos importantes de eficiência. “Conseguimos reduzir custos operacionais e ao mesmo tempo melhorar a experiência do paciente com respostas mais rápidas e atendimento mais integrado”, explicou.
Barreto também destacou o desafio de integração tecnológica. “Tem muita ferramenta de TI sendo implementada ao mesmo tempo. O grande desafio é integrar tudo isso de forma coordenada e estratégica dentro das organizações”, pontuou.

Governança, escala e integração na prática
Um dos painéis do Brazil Summit foi dedicado à interoperabilidade de dados em saúde, com moderação de Luiz Evangelisti, CIO da KORA Saúde.
Os participantes destacaram que interoperabilidade não é apenas um desafio tecnológico, mas também organizacional e institucional.
Segundo Vilson Cobello Junior, CIO do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, a interoperabilidade já é uma realidade e exige uma nova visão. “O uso está mais intrínseco: agora as pessoas devem discutir como usar todos esses dados que já estão interoperados para poder alavancar a saúde, a gestão e a eficiência das instituições”.
Shenandoan Alexandre Daur, CIO do Real Hospital Português, abordou iniciativas de integração com o setor público e anunciou um convênio com a Prefeitura do Recife “Um projeto pensado no modelo de repositório de saúde nacional, onde nós vamos ter dados de pacientes da rede municipal, toda a parte de regulação, atendimentos ambulatoriais, resultados de exames, prescrição médica e dispensação de medicamentos. Vamos provocar, por meio da interoperabilidade, uma escalada positiva para instituições de saúde, pacientes e também para a indústria farmacêutica”, revelou.
Para Teresa Sacchetta, diretora de saúde da InterSystems, a interoperabilidade deve ser entendida como um habilitador estratégico. “A interoperabilidade é um meio para gerar valor: melhorar a qualidade da assistência, aumentar a segurança, elevar a produtividade e reduzir desperdícios.” Ela também destacou o impacto sistêmico. “O valor da interoperabilidade não impacta apenas uma instituição individualmente, mas o sistema de saúde como um todo.”

O digital no centro da estratégia de saúde
A evolução do papel da tecnologia em saúde foi discutida no painel moderado por Claudio Giulliano, CEO da Folks.
Vitor Ferreira, CIO do Hospital Sabará e presidente da ABCIS, destacou a defasagem entre tecnologia e ação organizacional. “A evolução tecnológica caminhou a passos largos, mas o nosso modelo mental continua estagnado. Nós ainda não aprendemos a pensar de forma colaborativa e exponencial, assim como a tecnologia está nos apresentando as oportunidades”.
Para Humberto Shida, CIO da Unimed CNU, o valor estratégico da tecnologia depende de como ela é medida dentro da organização. “Se você mede TI apenas pela entrega de projetos, ela continuará sendo operacional. Quando mede pela geração de valor para o negócio, a lógica muda completamente. Não é mais possível tratar tecnologia apenas como uma função de suporte dentro das organizações de saúde”.
Já Paula Soares, executiva da Oncoclínicas & Co., reforçou o alinhamento com a jornada do paciente. “Tecnologia precisa estar conectada à estratégia da organização e à jornada assistencial”.

Inovação em grandes sistemas de saúde exige cultura e colaboração
Moderado por Daennye Trindade, CEO da TechInPulse, o último painel discutiu como grandes organizações hospitalares podem estruturar programas de inovação de forma sustentável.
Sandro Marchette, CIO/CTO da Rede Santa Catarina, destacou que tudo passa pela cultura organizacional. “Inovação começa pelas pessoas, passa pelos processos e só depois pela tecnologia”.
Mônica Pugliese, diretora de TI e IA da Rede D’Or São Luiz, pontuou: “Inovar é resolver problemas reais da jornada do paciente, muitas vezes com mudanças de processos”.
O objetivo final da inovação é gerar valor para pacientes e profissionais. Foi a visão compartilhada por Salatiel Goes, head de TI do Grupo Santa Helena. “A inovação precisa transformar a experiência do cuidado e gerar impacto real para as pessoas”.

O próximo ciclo da transformação digital da saúde no Brasil
As discussões do Brazil Summit mostram que o setor de saúde brasileiro entra em um novo ciclo de transformação digital. Após anos focados na digitalização de processos e na implementação de sistemas clínicos e administrativos, as organizações passam agora a explorar novas oportunidades associadas ao uso de dados, inteligência artificial e modelos mais avançados de integração digital.
Nesse contexto, o desafio para hospitais, operadoras e empresas de tecnologia será transformar inovação tecnológica em impacto concreto para pacientes e profissionais de saúde, mantendo a sustentabilidade do sistema.
O Brazil Summit mostrou que o ecossistema brasileiro já possui experiências relevantes nessa jornada e está cada vez mais conectado às discussões globais sobre o futuro da saúde.

