Conversamos com Tiago de Abreu, Alex Julian, Alex Vieira, Vitor Ferreira, Bianca Pascual, Shenandoan Daur y Felipe Cezar Cabral, representantes de diversas organizações brasileiras sobre suas impressões e as tendências identificadas durante o evento HIMSS Global 2026. Com base nessas conclusões, perguntamos quais são seus planos a curto, médio e longo prazo.

Tiago de Abreu, CIO Hospital Moinhos de Vento
1.Que conclusão você tira do evento HIMSS? O que gostaria de implementar na sua organização? Existe algum plano ou possibilidade concreta?
A principal conclusão que tiro da HIMSS é que a discussão sobre tecnologia em saúde entrou em uma fase mais madura. A inteligência artificial continua muito presente, mas já não aparece mais como novidade em si. O debate agora está muito mais centrado em como redesenhar processos, eliminar etapas que perderam sentido e reconstruir fluxos assistenciais e administrativos para uma nova realidade operacional.
O que mais me chamou atenção foi perceber que o valor não está simplesmente em adicionar novas ferramentas ao modelo atual, mas em revisar requisitos, simplificar jornadas e só então automatizar. Para uma organização de saúde, isso faz muito sentido, porque não adianta digitalizar a complexidade sem antes enfrentar a complexidade.
Dentro da nossa realidade, isso reforça o interesse em aprofundar iniciativas que reduzam fricção operacional, melhorem a integração de dados e apoiem decisões mais rápidas e qualificadas. Existe, sim, espaço concreto para evoluir nessa direção, especialmente em processos onde a tecnologia possa contribuir de forma mais clara para eficiência, experiência e sustentabilidade.
2. O que mais te impactou em matéria de inovação e que qualquer especialista em transformação digital deve observar?
O que mais me impactou não foi uma tecnologia isolada, mas a mudança de maturidade do debate. A inovação mais relevante já não está em apresentar algo chamativo, e sim em mostrar capacidade real de transformar processos, integrar informações, escalar com governança e gerar valor mensurável.
Na minha visão, qualquer especialista em transformação digital precisa prestar atenção justamente nisso: a discussão deixou de ser apenas sobre ferramentas e passou a ser sobre modelo operacional. Hoje, os temas mais importantes estão na combinação entre dados, interoperabilidade, simplificação de workflow, confiança, privacidade e capacidade de implementação em escala.
Em saúde, isso é ainda mais importante, porque inovação só faz sentido quando melhora o cuidado, reduz carga desnecessária para as equipes e cria condições mais sustentáveis para a operação. O desafio deixou de ser experimentar tecnologia. O desafio agora é transformar essa tecnologia em resultado aplicável no cuidado ao paciente.
3. Que palestra foi a mais inspiradora ou útil para você, e por quê?
A palestra que mais me marcou foi a do Jon McNeill, porque ela trouxe uma lógica de transformação muito objetiva e aplicável. A mensagem central era simples e poderosa: antes de automatizar, é preciso questionar requisitos, eliminar etapas desnecessárias, simplificar o processo e só então escalar com tecnologia.
Essa visão me pareceu especialmente relevante para a saúde. Muitas vezes, o setor corre o risco de tentar resolver com tecnologia processos que já nasceram excessivamente complexos. A palestra foi inspiradora justamente por lembrar que transformação de verdade não começa na ferramenta, começa na coragem de rever o que ainda faz sentido e o que precisa ser reconstruído.
Outra fala que também me chamou atenção foi a da Dra. Sumbul Ahmad Desai VP da Apple Saúde, principalmente pela ênfase em um uso de tecnologia mais conectado a prevenção, empoderamento do paciente e privacidade. Isso ajuda a complementar a visão de que não basta transformar a operação; é preciso fazer isso de forma coerente com a experiência e com a confiança do usuário.
4. Como você viu o avanço da nossa região em comparação com outras durante o evento?
Percebi um crescimento muito claro da presença do Brasil e de outros países latino-americanos no evento em comparação com edições anteriores. Isso demonstra um interesse maior da nossa região em acompanhar de perto as principais transformações da saúde digital e em manter diálogo com o que está sendo discutido e implementado nos mercados mais avançados.
Também me chamou atenção que, em muitos temas, o que já estamos fazendo por aqui está alinhado às discussões mais relevantes da feira. Existe repertório, existem bons casos e já há uma maturidade maior do que havia alguns anos atrás.
Ao mesmo tempo, ainda existe uma distância importante quando olhamos para escala, capacidade de investimento e velocidade de adoção de tecnologias de ponta. Em muitos casos, o nosso desafio já não é entender para onde o setor está indo, mas reunir as condições para implementar em escala e com sustentabilidade. Então, saio com uma percepção positiva sobre a evolução da região, mas também com clareza de que ainda temos um caminho importante pela frente.

Alex Julian, CIO Hospital Sirio-Libanes
1.Que conclusão você tira do evento HIMSS? O que gostaria de implementar na sua organização? Existe algum plano ou possibilidade concreta?
Minha principal conclusão do HIMSS é que a transformação digital na saúde já não se trata apenas de tecnologia, mas de como as organizações utilizam dados, inteligência artificial e novos modelos de trabalho para melhorar o cuidado com o paciente. Hoje vemos que muitas soluções de IA estão começando a gerar resultados reais, especialmente na redução de tarefas administrativas e no apoio à tomada de decisão clínica.
Na nossa organização, já estamos avançando em algumas dessas frentes, principalmente no uso de inteligência artificial aplicada à documentação clínica, à análise de dados e ao apoio em áreas como radiologia. O próximo passo é aprofundar a integração dessas ferramentas dentro dos fluxos de trabalho clínicos e também no próprio sistema de prontuário eletrônico. Existe uma clara intenção de seguir evoluindo nesse caminho, sempre com foco em gerar valor para os profissionais e para os pacientes.
2. O que mais te impactou em matéria de inovação e que qualquer especialista em transformação digital deve observar?
Algo que me chamou muita atenção foi como a inteligência artificial está evoluindo de ferramentas experimentais para soluções mais integradas ao dia a dia do hospital. Um bom exemplo são as tecnologias de “ambient AI”, que capturam a conversa entre médico e paciente e ajudam a gerar automaticamente a documentação clínica.
No entanto, o evento também deixou claro que a inovação não depende apenas da tecnologia. Muitos projetos enfrentam dificuldades porque os dados ainda estão fragmentados em diferentes sistemas ou porque não há integração suficiente com os fluxos de trabalho clínicos. Por isso, acredito que qualquer especialista em transformação digital deve dar muita atenção à arquitetura de dados, à interoperabilidade e, principalmente, ao engajamento dos profissionais de saúde com essas novas ferramentas.
3.Que palestra foi a mais inspiradora ou útil para você, e por quê?
Uma das apresentações que mais me chamou a atenção foi a que abordou o uso de inteligência artificial de voz ambiente para apoiar a documentação clínica. A palestra mostrou como essas soluções podem reduzir o tempo que os médicos dedicam a tarefas administrativas e melhorar a experiência durante a consulta, permitindo mais interação direta entre médico e paciente.
O que a torna especialmente interessante foi o fato de não tratar apenas da tecnologia, mas também dos desafios reais de adoção: a integração com os sistemas de prontuário eletrônico, a necessidade de redesenhar processos e a importância da gestão da mudança. Isso reforça a ideia de que a transformação digital na saúde é tanto um desafio tecnológico quanto cultural.
4.Como você viu o avanço da nossa região em comparação com outras durante o evento?
Acredito que a América Latina está avançando de forma consistente em temas de transformação digital na saúde, embora ainda existam diferenças importantes em relação a regiões mais maduras. Muitos hospitais da região já estão adotando tecnologias como plataformas de dados, inteligência artificial e soluções de automação clínica.
No entanto, o grande desafio ainda está na escala e na integração. Em vários países, vemos iniciativas muito inovadoras, mas que ainda são isoladas ou limitadas por questões de infraestrutura, financiamento ou regulação. Ainda assim, a presença de profissionais e organizações latino-americanas em eventos como o HIMSS demonstra que a região está cada vez mais conectada às tendências globais e com forte interesse em acelerar sua jornada de transformação digital.

Alex Vieira, CIO Hcor
1.Que conclusão você tira do evento HIMSS? O que gostaria de implementar na sua organização? Existe algum plano ou possibilidade concreta?
A minha principal conclusão sobre a HIMSS 2026 é que a transformação digital na saúde deixou de ser uma agenda de inovação e passou a ser uma agenda operacional. A inteligência artificial, os dados e os modelos de armazenamento e processamento não são mais diferenciais competitivos, mas sim pré-requisitos para qualquer organização relevante no setor. Dentro desse contexto, eu buscaria implementar prioritariamente soluções de IA aplicadas diretamente ao cuidado, como copilots clínicos e ferramentas baseadas em voz para automatizar registros e apoiar decisões médicas. Isso gera impacto direto em produtividade e qualidade assistencial. Existe, sim, viabilidade concreta de implementação, desde que estruturada em uma abordagem progressiva, começando por ganhos rápidos e evoluindo para um modelo mais robusto orientado a dados. Mais do que possível, é uma necessidade estratégica imediata.
2. O que mais te impactou em matéria de inovação e que qualquer especialista em transformação digital deve observar?
O que mais me impactou foi a maturidade da inteligência artificial no ambiente assistencial. A IA deixou de ser experimental e passou a ser incorporada no fluxo clínico real, principalmente com o avanço de soluções de voice AI que substituem a digitação e reduzem significativamente a carga operacional dos profissionais de saúde. Além disso, o alto nível de digitalização e estruturação de dados observado em mercados mais maduros cria um ambiente extremamente favorável para escalar essas soluções. Para qualquer especialista em transformação digital, o ponto de atenção não é mais digitalizar processos, mas sim estruturar dados e aplicar inteligência de forma escalável e integrada ao cuidado.
3. Que palestra foi a mais inspiradora ou útil para você, e por quê?
A palestra de Jon McNeill foi a que mais me chamou atenção, principalmente pela abordagem prática sobre inovação e execução. Ele reforça a importância de começar mesmo sem ter todas as respostas, testar rapidamente e evoluir continuamente. Essa mentalidade é extremamente relevante para a saúde, um setor que historicamente busca perfeição antes de agir. A principal mensagem é que a transformação não acontece a partir de planos perfeitos, mas sim da capacidade de execução contínua e aprendizado ao longo do caminho.
4. Como você viu o avanço da nossa região em comparação com outras durante o evento?
A América Latina ainda apresenta um gap relevante em relação a mercados mais maduros, especialmente no que diz respeito à maturidade de dados, interoperabilidade e adoção de inteligência artificial em escala clínica. No entanto, existe uma vantagem estratégica importante: a possibilidade de acelerar essa evolução sem carregar o mesmo nível de legado tecnológico de outras regiões. Isso cria uma oportunidade clara de “salto tecnológico”, adotando diretamente modelos mais modernos baseados em cloud, dados e IA. A região não está necessariamente atrasada, mas sim em um momento decisivo onde a velocidade e a qualidade da execução vão determinar o nível de protagonismo nos próximos anos.

Shenandoan Daur, CIO Real Hospital Português
1.Que conclusão você tira do evento HIMSS? O que gostaria de implementar na sua organização? Existe algum plano ou possibilidade concreta?
A principal conclusão é que a tecnologia em saúde deixou definitivamente de ser área de suporte para se tornar o núcleo da estratégia institucional. A discussão não é mais “se” devemos adotar IA, interoperabilidade ou automação — é “como” fazemos isso com governança, segurança e valor real para o paciente.
O que quero implementar no Real Hospital Português é o conceito de “Saúde Sem Barreiras”: zerar o tempo do paciente em processos administrativos e devolver esse tempo para a interação assistencial. O paciente deve chegar à unidade com tudo resolvido — autorização, check-in, histórico clínico disponível. Já temos iniciativas em andamento nessa direção, com integração de canais digitais e automação de fluxos via IA agentic.
2. O que mais te impactou em matéria de inovação e que qualquer especialista em transformação digital deve observar?
A ascensão da IA Agentic. Diferente da IA generativa, que responde a comandos, a IA agentic planeja, executa e coordena tarefas complexas de forma autônoma. Vimos casos reais em produção: agendamento completo via WhatsApp sem intervenção humana, agentes que verificam elegibilidade, solicitam exames e notificam o paciente em um único fluxo. Isso não é futuro — está acontecendo agora em hospitais brasileiros. Todo líder de transformação digital precisa entender que o próximo salto não é de ferramenta, é de autonomia.
3. Que palestra foi a mais inspiradora ou útil para você, e por quê?
O painel “From Hype to Impact: CMIO and CIO Perspectives on Scaling AI in Healthcare”, no Brazil Summit, foi o mais rico para mim. A discussão entre CMIOs e CIOs sobre como escalar IA com responsabilidade clínica foi extremamente honesta: IA administrativa já está madura, IA clínica ainda exige cautela e mais evidências. O ponto mais poderoso foi a constatação de que o paciente já chega ao consultório com diagnóstico sugerido por IA — e isso está forçando o médico a usar tecnologia de dentro para fora, não por imposição, mas por necessidade de resposta qualificada.
4. Como você viu o avanço da nossa região em comparação com outras durante o evento?
O Brasil surpreendeu. A comitiva da ABCIS foi uma das maiores delegações internacionais, e os casos apresentados por instituições brasileiras mostraram maturidade real — hospitais com EMRAM 7, IA em produção para predição de sepse, projetos de interoperabilidade com a RNDS. Longe de sermos espectadores, somos protagonistas em diversas frentes. O desafio da América Latina não é mais de capacidade técnica — é de escala, governança e equidade no acesso. Temos a inovação; precisamos agora de políticas e ecossistemas que a distribuam.

Vitor Ferreira, Diretor de TI, Hospital Infantil Sabará
1. Que conclusão você tira do evento HIMSS? O que gostaria de implementar na sua organização? Existe algum plano ou possibilidade concreta?
A principal conclusão após participar da HIMSS 2026 foi que a transformação digital na saúde deixou de ser uma agenda de inovação para se tornar uma agenda de sobrevivência institucional dos hospitais, materializada nas seguintes evidências:
- A inteligência artificial deixou de ser experimental e passou a ser operacional
- Casos concretos em larga escala (clinical decision support, automação de prontuário, copilotos assistenciais)
- Integração real com sistemas clínicos, não mais isolada em pilotos
- A experiência do paciente tornou-se eixo central das estratégias digitais
- Plataformas digitais integradas (portais, apps, navegação assistida)
- Redução de fricções na jornada como prioridade executiva
- Interoperabilidade deixou de ser discurso e virou pré-requisito competitivo
- Adoção madura de padrões como FHIR
- Ecossistemas conectados como base para qualquer evolução digital
- Automação de processos clínicos e administrativos como vetor de eficiência
- Redução de carga operacional das equipes
- Mitigação de erros assistenciais
Possibilidades concretas de traduzir essas percepções em projetos: A partir dessas evidências, destaco três frentes como prioritárias para desenvolvimento no Sabará Hospital Infantil:
Copiloto clínico baseado em IA generativa
- Ampliar o apoio à documentação médica (já temos projeto de transcrição e documentação no Pronto Socorro, mas o intuito é expandir para outros setores),
- Sugestões clínicas baseadas em contexto do paciente
- Redução do tempo de registro e aumento da qualidade assistencial
Plataforma integrada de experiência digital do paciente
- Jornada digital unificada (pré, intra e pós-atendimento)
- Comunicação ativa com pacientes e familiares
- Engajamento contínuo (modelo de cuidado longitudinal)
Arquitetura robusta de interoperabilidade
- Evolução para modelo baseado em APIs (FHIR)
- Integração entre sistemas legados e novas soluções
- Base para analytics avançado e IA
2. O que mais te impactou em matéria de inovação e que qualquer especialista em transformação digital deve observar?
O que mais me impactou não foi uma tecnologia isolada, mas sim a convergência e amadurecimento de três forças estruturais:
IA generativa integrada ao fluxo clínico
- Não é mais ferramenta de apoio — é parte do processo
- Redefine o papel do profissional de saúde
- Atua como amplificador de capacidade cognitiva
Plataformas de cuidado contínuo (além do hospital)
- O hospital deixa de ser o centro do cuidado
- Passa a ser um nó dentro de uma rede contínua
- Monitoramento remoto, engajamento digital e dados em tempo real
Amadurecimento da visão de Dados como ativo estratégico e não mais operacional apenas
- Governança de dados como pauta de board
- Data lakes clínicos estruturados
- Uso intensivo de analytics e IA
3. Que palestra foi a mais inspiradora ou útil para você, e por quê?
Gostei muito da apresentação do Jon McNeill (ex-CEO Tesla), detalhando o modelo da Tesla para Inovação e Escala onde Saíram do discurso conceitual, apresentaram métricas concretas, o valor está na redução de fricção, não na sofisticação da tecnologia, a implementação incremental é mais eficaz que grandes projetos
4. Como você viu o avanço da nossa região em comparação com outras durante o evento?
Como participei do evento com uma comitiva de executivos brasileiros, tivemos a oportunidade de interagir em várias ocasiões, onde o entendimento geral sobre a evolução digital na saúde brasileira é o seguinte: Temos excelentes projetos em andamento; Boa sinergia, entendimento e capacidade conceitual, mas ainda incipiente em termos de execução em escala
Principais gaps do cenário no Brasil: Fragmentação estrutural (Sistemas desconectadosFalta de padronização); Baixa priorização executiva (TI ainda vista como suporte e não como vetor estratégico); Limitações de investimento e governança (Projetos isolados e Falta de visão de longo prazo)

Bianca Pascual, CMIO, Oncoclinicas & Co
1.Que conclusão você tira do evento HIMSS? O que gostaria de implementar na sua organização? Existe algum plano ou possibilidade concreta?
O HIMSS consolidou que a transformação digital em saúde deixou de ser uma agenda futura e passou a ser uma necessidade operacional imediata. Observa-se uma forte orientação de soluções para dados, interoperabilidade e uso de inteligência artificial aplicada ao cuidado.
Na minha organização, o principal foco é avançar na integração entre dados clínicos e operacionais, permitindo maior suporte à decisão médica e eficiência assistencial. Já temos iniciativas em andamento nesse sentido, especialmente relacionadas à estruturação de dados clínicos e governança, com evolução concreta no curto prazo.
2. O que mais te impactou em termos de inovação e que você considera que qualquer especialista em transformação digital deve prestar atenção?
O que mais se destacou foi a maturidade do uso de inteligência artificial, especialmente em aplicações clínicas reais, como apoio à decisão, automação de fluxos e análise preditiva.
Mais do que a tecnologia em si, chama atenção a mudança de abordagem: soluções cada vez mais integradas ao fluxo assistencial, com foco em usabilidade e impacto direto na jornada do paciente e dos profissionais de saude. Qualquer especialista deve estar atento a capacidade de operacionalizar essas tecnologias de forma segura, escalável e com governança clara.
3. Qual palestra foi mais inspiradora ou útil para você e por quê?
As discussões voltadas à aplicação prática de inteligência artificial em ambientes clínicos foram bastante relevantes. Especialmente as sessões que abordaram a integração entre IA e prontuário eletrônico, pois trouxeram exemplos concretos de como transformar dados em valor assistencial sem maquiar as possíveis dificuldades encntradas.
Essas palestras foram inspiradoras por demonstrarem que o desafio atual não é mais tecnológico, mas sim de implementação, governança e mudança cultural dentro das organizações. O insight no momento é organizacional e não tecnológico
4. Como você avaliou o avanço da nossa região em comparação com outras durante o evento?
A América Latina apresenta avanços importantes, especialmente em iniciativas de digitalização e adoção de prontuário eletrônico. No entanto, ainda existe um gap relevante quando comparado a mercados mais maduros, como interoperabilidade, uso estruturado de dados e escala de soluções baseadas em IA.
Por outro lado, somos famosos pela grande capacidade de adaptação e inovação, o que pode acelerar essa evolução nos próximos anos. Para alguns mercados, a questão politica pode ser impactante, mas vemos os governos também mais abertos nas regulações e conscientes do impacto.

Felipe Cezar Cabral, CMIO, Hospital Moinhos de Vento
1. Que conclusão você tira do evento HIMSS? O que gostaria de implementar na sua organização? Existe algum plano ou possibilidade concreta?
Minha principal conclusão do HIMSS é que a transformação digital em saúde entrou em uma fase mais madura e mais pragmática. O centro da discussão já não é apenas adotar tecnologia, mas redesenhar processos, simplificar fluxos e gerar valor real para pacientes, profissionais e instituições.
Transformação digital de verdade não é colocar tecnologia sobre a complexidade. É ter coragem de remover a complexidade antes.
Um dos pontos que mais me marcou no evento foi perceber que inovação não começa necessariamente na automação. Ela começa, muitas vezes, no questionamento do processo atual, na eliminação de etapas desnecessárias, na simplificação do fluxo e só depois no uso da tecnologia para ampliar escala e eficiência. Essa lógica é extremamente aplicável à saúde, porque hospitais historicamente acumulam camadas de processos, exigências, controles e sistemas que nem sempre são revisitados com a profundidade necessária.
Na minha organização, eu gostaria de avançar ainda mais na integração da IA ao fluxo assistencial e administrativo, mas com um cuidado muito importante: não usar tecnologia para enfeitar processos ruins, e sim para resolver gargalos reais do dia a dia. Um ponto que me chamou muita atenção no HIMSS foi justamente a necessidade de reduzir atrito operacional. Quantos cliques, quantas etapas, quanta burocracia ainda existem em tarefas como documentação clínica, follow up, pedido de exames, gestão de leitos, comunicação entre áreas e apoio à decisão. O evento reforçou para mim que inovar também é remover fricção.
No Hospital Moinhos de Vento, isso conversa com uma agenda bastante concreta. Realizamos recentemente um assessment institucional de inteligência artificial, com ampla escuta de diferentes áreas do hospital, o que nos permitiu mapear um conjunto robusto de oportunidades e depois priorizá las até chegar às frentes mais estratégicas para Saúde Digital e TI. Isso mostra que, no nosso caso, a discussão já está além da inspiração. Ela entrou em fase de priorização executiva e desenho de execução.
IA em saúde só vira valor quando sai do palco da inovação e entra no fluxo real do hospital.
Entre as possibilidades mais promissoras, vejo espaço para avançar em monitoramento inteligente, apoio à decisão clínica, melhoria da qualidade do dado assistencial, predição em fluxos hospitalares, otimização de processos administrativos e uso de IA para reduzir fricções operacionais. Existe, sim, possibilidade concreta de fazer isso. Mas o aprendizado mais importante do evento é que essas soluções precisam ser construídas com médicos e equipes assistenciais, e não apenas para eles.
2. O que mais te impactou em matéria de inovação e que qualquer especialista em transformação digital deve observar?
O que mais me impactou foi perceber que a inovação mais relevante hoje não é necessariamente a mais sofisticada, mas a que consegue se integrar ao processo real de trabalho. Isso apareceu tanto nas discussões de IA quanto nas conversas sobre liderança, governança e execução. Há uma maturidade maior no mercado. Menos encantamento com demonstrações isoladas e mais atenção à adoção concreta, interoperabilidade, produtividade, retorno e segurança.
A inovação mais valiosa na saúde não é a que impressiona no auditório. É a que funciona na segunda feira de manhã.
Acho que qualquer especialista em transformação digital deve prestar atenção em alguns movimentos muito claros. O primeiro é a migração de uma lógica de automação genérica para uma lógica de precisão, em que dados e IA ajudam a identificar onde a intervenção realmente gera mais valor. O segundo é a necessidade de combinar inovação com método de priorização, porque nem todo problema exige a solução mais complexa. Em muitos casos, uma solução mais simples, bem executada e entregue no momento certo, gera mais valor do que um modelo muito sofisticado implementado tardiamente. O terceiro é a mudança cultural. Inovar passa cada vez mais por redesenhar processos e questionar premissas antigas.
Não existe transformação digital madura sem priorização. Inovar também é escolher muito bem onde não colocar energia.
No nosso assessment institucional, isso ficou muito claro. As oportunidades mais relevantes não são apenas futuristas. Muitas atacam problemas muito concretos do dia a dia hospitalar, como documentação estruturada, monitoramento clínico, autorização com operadoras, fechamento de contas, análise de contratos, previsão de demanda, gestão de leitos e alertas clínicos críticos. Isso conversa diretamente com o que vi no HIMSS. A IA começa a amadurecer de verdade quando sai da lógica do experimento isolado e entra na lógica de workflow, governança e resultado.
Também me chamou atenção a crescente centralidade da governança de IA. Ver o fortalecimento de estruturas executivas ligadas ao tema mostra que a IA está deixando de ser apenas uma pauta técnica e passando a ser uma pauta estratégica, conectada à liderança institucional, à cultura e ao modelo operacional.
Outro ponto muito relevante apareceu na palestra da Apple, que reforçou a transição de uma saúde reativa para uma saúde mais proativa, baseada em dados, wearables, monitoramento remoto e maior protagonismo do paciente. Isso amplia bastante a discussão. Não estamos falando apenas de hospitais mais digitais, mas de uma jornada de saúde mais contínua, distribuída, personalizada e participativa.
O futuro da saúde digital não será apenas mais tecnológico. Ele precisará ser mais humano, mais contínuo e mais preditivo.
3.Que palestra foi a mais inspiradora ou útil para você, e por quê?
Uma das palestras que mais me inspirou foi a abordagem de Jon McNeill, ex presidente da Tesla, porque trouxe uma visão muito disciplinada e prática de inovação. A lógica de questionar requisitos, eliminar etapas, simplificar, acelerar e só depois automatizar é extremamente poderosa e muito aplicável à saúde.
Automatizar sem simplificar antes é, muitas vezes, apenas acelerar a ineficiência.
Em hospitais, convivemos com fluxos longos, etapas acumuladas ao longo do tempo, exigências históricas que raramente são revisitadas e uma tendência de adicionar novas camadas sem retirar as antigas. Por isso, essa palestra foi especialmente útil. Ela nos lembra que transformação digital não deve ser apenas digitalização do que já existe, mas um redesenho inteligente da operação.
Na saúde, a tecnologia não substitui clareza operacional. Ela amplia a potência daquilo que já foi bem pensado.
Ao mesmo tempo, eu destacaria também a palestra de Sumbul Ahmad Desai, da Apple, porque ela trouxe um contraponto extremamente importante. A inovação digital precisa ser centrada no humano. Gostei especialmente da forma como ela conectou tecnologia, bem estar, dados nas mãos do usuário, pesquisa clínica, monitoramento remoto e parceria entre paciente e profissional. Essa visão amplia a discussão, porque mostra que inovação em saúde não é apenas eficiência institucional. É também dar mais autonomia, mais continuidade e mais inteligência para a jornada da pessoa.
O cuidado do futuro será cada vez mais digital, mas só fará sentido se continuar profundamente humano.
Se eu tivesse que resumir, diria que a palestra de Jon McNeill foi a mais inspiradora do ponto de vista de execução e transformação organizacional, enquanto a da Apple foi extremamente útil para pensar o futuro da saúde sob a ótica de modelo assistencial, prevenção e centralidade no paciente.
4. Como você viu o avanço da nossa região em comparação com outras durante o evento?
Vi nossa região, especialmente o Brasil, em um momento interessante de amadurecimento. Temos menos escala e menos recursos do que alguns mercados mais maduros, mas frequentemente compensamos isso com adaptabilidade, criatividade e capacidade de implementação em contextos complexos. No evento, ficou claro para mim que a América Latina já não ocupa apenas o lugar de observadora. Ela começa a construir uma voz própria, com experiências relevantes, lideranças qualificadas e casos concretos de transformação.
A América Latina talvez não seja a região com mais recursos, mas certamente é uma das que mais aprendeu a inovar sob pressão.
Ao mesmo tempo, ainda existe uma diferença importante quando olhamos para escala, integração de dados, interoperabilidade, governança e capacidade de transformar pilotos em estruturas permanentes. Em outras palavras, nossa região já mostra competência para inovar, mas ainda precisa fortalecer sua musculatura de execução sistêmica.
O desafio da nossa região já não é provar que consegue inovar. É provar que consegue escalar com consistência.
No caso do Brasil, acredito que temos um papel especialmente relevante porque reunimos instituições maduras, lideranças qualificadas e uma capacidade real de testar, adaptar e implementar soluções em ambientes complexos. O que ainda precisamos fortalecer é a transformação de bons pilotos em estruturas sustentáveis, integradas e permanentes.
O futuro da saúde digital na nossa região dependerá menos de discurso e mais de disciplina de execução. A região precisa avançar com responsabilidade, mas precisa avançar.


