Estratégia de Diagnóstico Integrado: um continente em transição

Entrevistas Notícias corporativas PT

Conversamos com Caroline Zago, líder de Enterprise Informatics da Philips para a América Latina, sobre como a empresa está adaptando padrões globais de informática em saúde para a realidade dos hospitais latino-americanos.

Por Paula Penedo

Caroline Zago sabe exatamente onde o sistema de saúde trava. Com mais de duas décadas de experiência em liderança na Europa e nas Américas, ela acompanhou de perto a transformação de um setor que acumula dados em velocidade recorde, mas ainda luta para convertê-los em decisões clínicas mais rápidas e precisas.

A executiva brasileira está à frente da estratégia de Enterprise Informatics da Philips para a América Latina há 11 anos. Nessa posição, dirige a visão regional em radiologia com uso de IA, informática clínica e plataformas de saúde integradas. Sua formação acadêmica inclui instituições como FGV,  Fundação Dom Cabral, London Business School e Erasmus University Rotterdam.

Em 2024, Zago liderou a 11ª edição do Philips Connect Day em São Paulo, o maior evento de informática em saúde da empresa na região. Na ocasião, colocou um número incômodo na mesa: apenas 16% dos hospitais latino-americanos estão digitalizados. Para ela, esse dado não é só um retrato do setor. É o ponto de partida para entender por que a Philips aposta na estratégia de Diagnóstico Integrado como resposta a um problema que, como ela explica nesta entrevista, mudou de forma, mas ainda precisa ser resolvido.

  • Em 2024, você destacou a fragmentação de dados como o principal gargalo da saúde. Em 2026, o setor avançou na integração ou o problema apenas mudou de forma?

A fragmentação evoluiu, mas não desapareceu. Hoje o desafio não é apenas integrar dados, mas lidar com um volume massivo e, muitas vezes, desestruturado de informações. A medicina moderna gera cerca de 3,6 bilhões de procedimentos de imagem por ano, e transformar esse volume em valor clínico é o novo ponto crítico.

Temos avançado com a estratégia de Integrated Diagnostics e com soluções como o Vue PACS em versão web na América Latina, que ajudam a organizar esse ecossistema. Ao integrar dispositivos e sistemas, conseguimos transformar o excesso de dados em informação útil, conectando a jornada clínica e devolvendo tempo ao cuidado com o paciente.

  • O ecossistema baseado no Philips HealthSuite propõe eliminar silos históricos entre áreas como radiologia, patologia e monitoramento. Quais são os principais desafios técnicos e culturais para viabilizar essa integração? E, tecnicamente, como garantir a segurança e a soberania dos dados?

Na América Latina, os desafios passam por infraestrutura desigual, escassez de profissionais especializados e uma mudança cultural importante na forma de trabalhar dados de maneira integrada. Para avançar, atuamos sobre três pilares: a interoperabilidade para unificar dados, fluxos de trabalho inteligentes que organizam a informação nos bastidores e o uso de IA integrada ao processo clínico.

Segurança e soberania são premissas. Trabalhamos com arquiteturas que respeitam regulações locais, governança rigorosa de dados e padrões internacionais de proteção, garantindo que as informações permaneçam seguras, auditáveis e sob controle das instituições.

  • A migração para plataformas cloud-native ainda gera desconfiança em parte do setor de saúde brasileiro. Qual é o argumento da Philips para convencer gestores hospitalares de que os benefícios superam os riscos percebidos?

O ponto central é mostrar o impacto real na operação. Em ambientes fragmentados, as equipes perdem tempo buscando informações, há retrabalho e aumento de custos com exames repetidos.

Com o uso de IA e a abordagem de Integrated Diagnostics, conseguimos reduzir significativamente a necessidade de repetir exames, ao garantir melhor qualidade de imagem, acesso a dados completos e suporte à decisão clínica desde o primeiro momento. Com plataformas integradas, a informação passa a estar disponível no momento certo, para a pessoa certa, o que melhora a colaboração, reduz atrasos e aumenta a eficiência clínica.

Mais do que tecnologia, trata-se de resolver gargalos operacionais concretos e preparar a instituição para uma medicina mais conectada e sustentável.

  • Há um amplo debate sobre se a IA vai substituir o radiologista. A Philips defende que ela deve potencializar o profissional. Pode dar exemplos concretos de como isso acontece na prática no ecossistema de vocês?

A IA não substitui o médico — ela amplia sua capacidade de atuação. Na prática, isso acontece dentro do próprio fluxo de trabalho. O SmartSpeed Precise, por exemplo, acelera exames de ressonância magnética em até três vezes, com imagens mais nítidas. Isso reduz tempo de aquisição e melhora a qualidade diagnóstica.

Estamos atuando também com instituições no desenvolvimento de soluções que apoiam decisões clínicas, como a avaliação automatizada do posicionamento de DIU. Além disso, assistentes virtuais ajudam a reduzir tarefas administrativas, permitindo que o médico foque no que realmente importa: o paciente.

  • Em termos práticos, como a inteligência artificial aplicada à imagem médica está impactando métricas como tempo de diagnóstico, acurácia e carga de trabalho?

O impacto é direto na operação clínica. A combinação de IA com fluxos inteligentes permite acelerar o tempo até o diagnóstico, priorizar casos mais críticos e aumentar a consistência dos laudos.

Soluções como o SmartSpeed Precise reduzem o tempo de exame, enquanto plataformas como o Advanced Visualization Workspace (AVW) integram diferentes modalidades de imagem, apoiando análises mais completas. Na prática, isso contribui para mais agilidade, maior precisão diagnóstica e redução da carga cognitiva dos profissionais.

  • Ferramentas como assistentes virtuais e captura automática de dados prometem reduzir significativamente o tempo de consulta. Como isso está redesenhando o papel do médico na prática?

Estão devolvendo ao médico o tempo clínico. Hoje, uma parte significativa da jornada é consumida por tarefas administrativas. Com assistentes virtuais, é possível transcrever consultas, estruturar informações automaticamente e agilizar processos como documentação e alta. O resultado é um profissional menos sobrecarregado, com mais foco na escuta, no diagnóstico e na relação com o paciente.

  • Como vocês medem o impacto real da IA na redução da carga de trabalho dos profissionais de saúde? Existem métricas ou estudos que quantificam esse ganho em instituições que já adotaram a plataforma?

Medimos com base em indicadores operacionais e clínicos, como tempo por exame, turnaround time de laudos e produtividade das equipes. Também acompanhamos a redução de tarefas administrativas e o ganho de eficiência nos fluxos de trabalho. Além disso, iniciativas como as que temos com instituições de saúde públicas e privadas permitem validar esses ganhos em ambientes reais, garantindo evidência clínica e aplicabilidade prática.

  • Em mercados emergentes, eficiência operacional é tão crítica quanto inovação. Como o Diagnóstico Integrado contribui para a sustentabilidade financeira das instituições de saúde?

Eficiência operacional é essencial para a sustentabilidade. Ao integrar dados, fluxos de trabalho e inteligência, reduzimos retrabalho, evitamos exames desnecessários e reduzimos a repetição de exames ao longo da jornada do paciente, graças ao uso de IA e à integração de dados clínicos.

Isso diminui custos operacionais e melhora a capacidade de atendimento sem necessariamente aumentar a estrutura. O resultado é um sistema mais eficiente: melhor para o gestor, mais preciso para o médico e mais ágil para o paciente.

  • Quais são os limites éticos e clínicos que a Philips estabelece para o uso de IA no diagnóstico, especialmente para evitar vieses que possam ampliar desigualdades em saúde?

A segurança do paciente é o princípio central. Todas as soluções passam por validação clínica e seguem padrões regulatórios rigorosos — temos mais de 1.450 dispositivos com IA autorizados pelo FDA.

Para mitigar vieses, trabalhamos com diversidade de dados e contextos. O Brasil, por sua diversidade populacional, é um ambiente estratégico para desenvolver e testar soluções mais inclusivas. Iniciativas em parceria com o Sistema Único de Saúde (SUS) reforçam esse compromisso, garantindo que a inovação seja acessível e aplicável à realidade local.

  • O Brasil e a América Latina têm uma realidade diferente da Europa em infraestrutura, regulação e recursos. Como a Philips adapta suas soluções globais às necessidades e restrições do mercado regional?

Adaptar significa co-desenvolver. O Brasil é um ambiente estratégico para inovação justamente por sua escala e diversidade. Mantemos parcerias com hospitais que permitem desenvolver soluções a partir de necessidades reais do sistema de saúde local. Além disso, apostamos em interoperabilidade neutra, com plataformas capazes de integrar diferentes fabricantes, um ponto essencial em mercados heterogêneos como o nosso.

  • A digitalização do setor público ganhou tração nos últimos anos. O que mudou na relação entre tecnologia, governo e execução de projetos desde então?

Estamos saindo de projetos pontuais para uma abordagem mais contínua e orientada a impacto.  O setor público está mais integrado ao processo de inovação, participando do desenvolvimento e da aplicação das soluções. O trabalho com o Sistema Único de Saúde (SUS) é um exemplo claro: tecnologia sendo construída já com foco em escala e uso real na rede pública.

  • Olhando para os próximos cinco anos, qual é a mudança mais disruptiva que o Diagnóstico Integrado vai provocar na forma como hospitais e clínicas operam e que ainda hoje parece distante para a maioria das instituições?

A integração total dos dados com inteligência aplicada de forma transparente. Radiologia, cardiologia e patologia deixarão de operar como áreas isoladas e passarão a atuar sobre uma base unificada, com suporte contínuo de IA. O diagnóstico deixará de ser um evento pontual para se tornar um processo contínuo, mais rápido, mais preciso e cada vez mais personalizado — transformando a maneira como cuidamos dos pacientes.

Please follow and like us: