Durante o HIMSS Argentina Executive Summit, representantes dos principais hospitais e serviços de saúde do país compartilharam os desafios que enfrentam atualmente e suas estratégias de transformação digital.
Por Isaac Chang e Rocío Maure
Em um painel especial, o primeiro HIMSS Argentina apresentou os avanços na transformação digital dos hospitais nacionais, tanto públicos quanto privados. A Dra. Mariel Sánchez, Diretora Médica Executiva do Hospital Pediátrico Juan P. Garrahan, comentou que sua instituição conseguiu implementar soluções como teleconsultas e superar as barreiras de TI para o uso eficiente de dados diagnósticos. Ela também apresentou um projeto que aplica IA às diretrizes de tratamento clínico e enfatizou que o desafio atual é incorporar essa tecnologia, aprimorando o que já existe.
Por sua vez, o Dr. Leonardo Garfi, Diretor Médico Adjunto de Planejamento Estratégico do Hospital Italiano de Buenos Aires, apresentou o TANA-GPT, um assistente desenvolvido a partir de um bot que, integrado a 20 anos de prontuários médicos estruturados, permite consultas complexas de pacientes e é aplicado em áreas como auditoria, gestão administrativa e educação. Este desenvolvimento nasceu na unidade de inovação do hospital, que canaliza as ideias dos profissionais para soluções concretas. O Dr. Garfi também alertou para uma mudança na dinâmica da liderança: “Antes, era a gestão que impulsionava a inovação, enquanto hoje, muitas vezes, é a equipe que traz as ferramentas para o sistema, desafiando o planejamento tradicional.”
Por sua vez, o Dr. Javier Mariani, Diretor Executivo da Rede de Hospitais de Alta Complexidade “El Cruce”, observou que a instituição nasceu como um hospital digital e atualmente caminha para um padrão de histórico clínico transversal. Modelos preditivos já estão sendo utilizados em oftalmologia e eletrocardiogramas, o que amplia o acesso diagnóstico em contextos sem especialistas. Ele enfatizou que a implementação de sistemas como o histórico clínico digital gera impactos e resistências transversais, sendo fundamental alcançar uma adaptação harmoniosa em todos os setores.
Do Hospital Alemão, o Gerente Geral Hernán Sandro refletiu sobre a necessidade de distinguir entre automação e inteligência artificial. Ao mencionar um desenvolvimento contínuo para o agendamento de consultas com tecnologia de IA, ele instou as organizações a não caírem em modismos tecnológicos sem uma estratégia clara. Ele também propôs três pilares para uma transformação digital sustentável: ter um propósito claro, planejar de olho no futuro e colocar as pessoas no centro. Por fim, enfatizou que a digitalização deve ser uma responsabilidade compartilhada por toda a organização.
Nesse sentido, o Engenheiro Rafael Aragón, Diretor Geral do Hospital Universitário Austral, concordou com a necessidade de uma abordagem estratégica e anunciou o desenvolvimento de um assistente de IA que permitirá a exploração integral do acervo hospitalar com mais de um milhão de prontuários médicos digitais para uso médico, mas também para pesquisa, educação e tomada de decisões clínicas. Ele concluiu que a sociedade já está passando por uma transformação acelerada e, por isso, “o grande desafio é ajudar as pessoas a entender, adotar e usar as inovações sem ficar para trás, especialmente em sociedades envelhecidas e com menor mudança geracional”.
Por fim, o Dr. Danilo Musso, Diretor Médico do campus principal do Hospital Universitário de Córdoba, listou aplicações específicas que melhoraram a qualidade do atendimento e a experiência de pacientes e profissionais: confirmação inteligente de consultas, modelos preditivos em medicina fetal e uma experiência inovadora de tele-UTI com robôs que prestam cuidados intensivos remotamente. Ele também antecipou que a cirurgia robótica será um dos próximos desafios a serem incorporados e enfatizou a importância de considerar os aspectos bioéticos desde o início.
Hospitais certificados pela HIMSS
Assim como outros países da região, a Argentina possui hospitais que estão implementando modelos de maturidade HIMSS. Guillermo Borel, CEO da RightPartner e Parceiro Certificado HIMSS Analytics para a América Latina, apresentou esses modelos HIMSS. E explicou o que significa apoiar instituições de saúde no processo de certificação. Os modelos foram validados com mais de 20 mil implementações em todo o mundo e visam gerar benefícios econômicos, operacionais e de saúde.
Como representante da experiência argentina, Pablo Martín De Natale, CTO do Sanatório Finochietto, explicou que a instituição está passando por um processo de transformação digital focado em um novo prontuário eletrônico, interoperabilidade e uma experiência cada vez mais livre de papel, mantendo o atendimento centrado no paciente. Ele enfatizou que o HIMSS representa um guia valioso para avançar nesse caminho, pois “nos permite adotar padrões internacionais, comparar-nos com outras instituições da região e agregar uma perspectiva externa que ajuda a quebrar as divisões internas”. Em relação à inovação, ele compartilhou que sua abordagem consiste em segmentar grandes problemas em partes menores e envolver usuários-chave, como médicos, enfermeiros e pacientes.
Do ponto de vista do atendimento especializado, o Dr. Mariano Benzadon, Diretor de Qualidade, Segurança e Experiência do Paciente e Chefe de Inovação do Instituto Cardiovascular de Buenos Aires (ICBA), comentou que sua instituição possui um alto grau de maturidade digital, com um prontuário eletrônico completo implementado em todas as áreas de atendimento, e que atualmente está trabalhando para obter a certificação HIMSS. Com base em sua experiência, o Dr. Benzadon indicou que ter modelos de referência internacionais permite detectar objetivamente oportunidades de melhoria. “Queremos oferecer um atendimento de classe mundial, comparável aos melhores centros do mundo, e o HIMSS nos permite estar alinhados com as melhores práticas em transformação digital”, afirmou. Ele também comentou que, embora seja comum falar em colocar o paciente no centro, no caso de prontuários médicos, o verdadeiro usuário é o profissional de saúde, e que o grande sucesso de sua instituição foi considerar facilitar o trabalho médico por meio de um prontuário médico projetado com a metodologia Lean, eliminando ineficiências antes de redesenhar a documentação. Essa perspectiva permitiu que a ferramenta fosse verdadeiramente ágil.
Por fim, o Magistrado Matías Cortiñas, CIO do Hospital Universitário Austral, explicou que a transformação digital do hospital está organizada em três pilares principais: experiência do paciente, interoperabilidade e back-office. Eles já implementaram com sucesso o módulo de EHR ambulatorial, enquanto desenvolviam uma estratégia robusta de ciência de dados com agentes inteligentes para agilizar a análise clínica e administrativa. Ele também observou que a chave é ter os dados no centro para tomar decisões de forma ágil e adaptável, priorizando a eficiência em um contexto de baixas margens econômicas. Atualmente, o hospital alcançou 50% dos requisitos para atingir o nível máximo de HIMSS, então eles continuam trabalhando nessa direção.
Digitalização nos serviços de saúde: previdência social e planos de saúde pré-pagos
Outro ator importante no setor são as seguradoras de saúde social e convênios particulares que, responsáveis por grandes volumes de operações, trabalham em colaboração com diversos fornecedores. Em um painel moderado por Gabriel Oriolo, Superintendente de Saúde da Nação, diversos representantes dessas organizações compartilharam suas opiniões e respostas à inovação.
Sergio Fernández, Gerente Executivo de Sistemas do Grupo OSDE, destacou o potencial do avanço tecnológico para lidar com a escassez de fornecedores. Nesse sentido, explicou que implementaram um sistema de agendamento digital que atualmente gerencia 1,7 milhão de consultas por mês, integrando consultas remotas em vídeo, prontuários médicos e conectividade com mais de 200 sistemas externos. No entanto, lamentou que o principal desafio em termos de interoperabilidade é a enorme disparidade entre instituições com diferentes níveis de desenvolvimento tecnológico. Como alternativa, considerou fundamental o papel do Estado na promoção de um modelo federado que permita a troca efetiva de dados clínicos entre entidades.
Por sua vez, Mauricio Lombardo, Diretor de Sistemas e Tecnologia do Swiss Medical Group, destacou três inovações principais: primeiro, o uso de dados preditivos para programas preventivos; segundo, a aplicação de IA para otimizar a prescrição de medicamentos; e terceiro, um sistema de “plantão ágil” que direciona os pacientes para o canal de atendimento mais adequado, melhorando a eficiência e a capacidade da equipe médica. Em relação à interoperabilidade, ele concordou que a liderança estatal é essencial e acrescentou que a definição de padrões comuns é urgente. “A interoperabilidade implica investimento, e isso requer uma estrutura regulatória clara que nos alinhe a todos em direção a um objetivo comum, sustentado ao longo do tempo”, enfatizou.
Nesse sentido, Cláudia Tejedor, CIO/CTO Corporativa responsável pela Medifé, Sanatório Finochietto, ASE e Fundación Medifé, destacou a necessidade de regulamentações claras, um modelo de governança e a adoção efetiva de padrões como HL7, FHIR, DICOM e SNOMED. “O sistema ainda opera com alta ineficiência em termos de codificação clínica”, reconheceu Tejedor. A especialista também destacou o papel da IA na aceleração de diagnósticos, no gerenciamento de pacientes crônicos e na otimização de consultas e autorizações.
Representando organizações de seguridade social, o Dr. Gabriel Lebersztein, Diretor Médico da Obra Social de Empregados do Comércio (OSECAC), enfatizou a importância da prevenção e de uma abordagem integral para o envelhecimento saudável. Ele também alertou para a necessidade de melhorar a compensação médica e aumentar o investimento em recursos humanos para garantir a sustentabilidade do sistema. Em relação à interoperabilidade, ele destacou seu potencial para gerar economias significativas e aprimorar a eficiência do sistema: “Alguns exames são solicitados até 12 vezes, quando um deveria ser suficiente”, exemplificou. Ele também alertou sobre a falta de indexação diagnóstica em exames médicos e propôs começar garantindo registros médicos interoperáveis no nível de atenção primária, que é muito mais fragmentado do que o ambiente hospitalar.
Por fim, Silvia Bordegaray, Diretora Adjunta do Serviço Social do Pessoal de Luz e Fuerza Córdoba (OSPLYFC), explicou que seu modelo combina atendimento presencial integral com digitalização progressiva para atender a uma população maior. Ela também destacou a busca por parcerias para compras conjuntas que reduzam custos e garantam a sustentabilidade. Em relação à interoperabilidade, ela propôs iniciar testes piloto em áreas como assistência domiciliar, desde que exista uma estrutura de governança adequada. “A tecnologia está lá; o que falta é alinhar todos os atores do sistema para avançar. Inovação é isso: quando encontramos uma resposta, eles mudam a pergunta”, concluiu, citando Mario Benedetti.
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