Líderes do governo e de organismos nacionais que participaram do primeiro HIMSS Argentina Executive Summit conduziram uma análise profunda da atual situação nacional e pediram por inovação contínua.
Por Isaac Chang e Rocío Maure
Em 22 de maio de 2025 ocorreu o primeiro HIMSS Argentina Executive Summit. Com foco na transformação digital e inovação na área da saúde, a iniciativa reuniu os líderes mais proeminentes do ramo. A importância da interação entre os setores público e privado ficou clara desde o início e, após o discurso de boas-vindas do Dr. Mariano Groiso, assessor do HIMSS para a América Latina, diversas vozes do governo e de outras organizações sob sua responsabilidade tomaram a palavra.
Do Ministério da Saúde da Argentina, a Vice-Ministra María Cecília Loccisano focou na mudança de paradigma na gestão da saúde pública para uma alocação mais eficiente de competências e recursos entre a nação e as províncias, em conformidade com o federalismo constitucional. “Essa abordagem implica abandonar a fragmentação histórica para construir um sistema baseado em redes integradas, dados úteis e de qualidade, priorizando a interoperabilidade entre as ferramentas existentes em vez de gerar soluções isoladas e pouco adaptáveis”, afirmou. Entre os exemplos concretos, destacou o uso de painéis interativos para monitoramento em tempo real de surtos epidêmicos como dengue e sarampo. Mencionou também a otimização do Programa Nacional de Imunização por meio de um novo sistema de planejamento de compras baseado em IA e o relançamento do Registro Federal Nominalizado de Vacinação (NOMIVAC), que agora permite rastreabilidade completa, com registro online e offline e alertas automatizados para todo o calendário nacional. Destacou ainda a implementação de receitas médicas digitais em todo o país, bem como o desenvolvimento de um QR code para medicamentos, que facilitará a comparação de preços entre as opções disponíveis nas farmácias.
Por sua vez, Natalia Avendaño, presidente da Agência Nacional de Promoção de Pesquisa, Desenvolvimento Tecnológico e Inovação (Agência I+D+i), enfatizou o compromisso do governo argentino em promover a transformação digital por meio da coordenação entre os setores público e privado e destacou avanços como o crescimento do aplicativo Mi Argentina, o registro de vacinas e o futuro georreferenciamento dos centros de vacinação, bem como a incorporação do chatbot Tina, com foco na vacinação.
Por sua vez, Susana Azurmendi, Subsecretária de Vigilância Epidemiológica do Ministério da Saúde, abordou os desafios da digitalização na saúde e enfatizou que “a transformação digital exige comunicação consistente entre jurisdições”. Ela também apresentou os resultados da pesquisa de maturidade digital em saúde.
O panorama estadual
Como apontaram as autoridades nacionais argentinas, as estratégias locais em cada jurisdição precisam ser fortalecidas. A província de Misiones, por exemplo, conta com uma estratégia de saúde digital baseada em um único prontuário eletrônico, em vigor desde 2010. Isso foi explicado pelo Dr. Héctor González, Ministro da Saúde de Misiones, e pelo Dr. Darío Trela, Diretor do Hospital Universitário Dr. Ramón Madariaga, em Posadas. O RISMi conecta diversas instituições públicas e é complementado pelo portal ALEGRAMED, que oferece teleconsultas, autogestão de consultas e acesso a campanhas de prevenção. Além disso, as autoridades explicaram que estão trabalhando em prescrições eletrônicas e chatbots dedicados à saúde mental, com foco na prevenção do suicídio. A província conta com uma lei-base que promove a integração público-privada e a digitalização sob a premissa de que “nenhum sistema se salva sozinho”.
Por sua vez, o Dr. Martín Regueiro, Ministro da Saúde de Neuquén, enfatizou que o prontuário eletrônico público permitiu a priorização de ações concretas, como a inclusão de mamografias na região de Vaca Muerta, devido à alta incidência de câncer de mama, e a implementação de pontos de atendimento ampliados para reduzir a demanda nos prontos-socorros. A província tem uma forte vocação para o uso de dados na gestão da saúde, razão pela qual o Dr. Regueiro destacou o desenvolvimento de painéis baseados em indicadores reais, que norteiam as 15 linhas de cuidado do Plano Provincial de Saúde. Para o público, planeja-se lançar um portal único em meados do ano, que integrará consultas e informações clínicas dos setores público e privado.
Por fim, a cidade de Buenos Aires está avançando com um ambicioso plano para digitalizar e modernizar o seu sistema de saúde. As principais ações incluem o progresso rumo à digitalização integral dos prontuários médicos, a unificação dos sistemas de agendamento e a melhoria da infraestrutura tecnológica hospitalar. De acordo com o Ministro da Saúde da Cidade de Buenos Aires, Dr. Fernán Quirós, foi obtido um empréstimo do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) para acelerar esse processo. “Com esse financiamento, uma agenda que estava inicialmente planejada para durar uma década pode ser concretizada em quatro anos”, explicou.
Rede
Diversas organizações que atuam na esfera do ministério também estiveram presentes no evento HIMSS Argentina, moderado por Santiago Troncar, diretor do Consultório Móvil.
A Dra. Agustina Bisio, Administradora Nacional da ANMAT (Administração Nacional de Medicamentos, Alimentos e Tecnologia Médica), explicou como a agência evoluiu para apoiar a inovação em saúde por meio da digitalização de processos, digitalizando com sucesso 97% de seus procedimentos e eliminando quase completamente o uso de papel. Um dos avanços recentes foi o guia de elementos descentralizados, que permitiu a informatização do consentimento informado, além de controles e visitas virtuais em estudos clínicos. Isso reduziu a carga sobre os pacientes sem comprometer a qualidade dos dados. Ela também destacou o desenvolvimento do e-labeling, um sistema que incorpora códigos QR nas embalagens de medicamentos para garantir acesso imediato a bulas atualizadas e informações úteis para os pacientes.
Representando a indústria farmacêutica, Carolina Sian, Diretora de Assuntos Regulatórios da Câmara Argentina de Especialidades Médicas (CAEME), ressaltou a importância da prescrição eletrônica e da interoperabilidade para promover a transparência e a eficiência no tratamento, e destacou o potencial da Argentina como um polo de pesquisa clínica.
Por sua vez, o Dr. Pablo G. Stutzbach, presidente da Sociedade Argentina de Cardiologia, membro do Conselho de Saúde Digital da SAC e do Fórum de Sociedades Médicas da Argentina, enfatizou que “a falta de coordenação dentro do sistema de saúde impede a redução da mortalidade cardiovascular”. Ele afirmou que a saúde digital é fundamental para melhorar os tempos de resposta e aproximar o atendimento de áreas remotas. No entanto, a crise do sistema, a falta de financiamento e a desigualdade entre os setores público e privado dificultam sua implementação.
Outros obstáculos atuais incluem a necessidade de um marco regulatório robusto, financiamento adequado e princípios bioéticos que garantam equidade e acesso seguro, como ilustrado por Victoria del Castillo, Diretora Executiva da Câmara Argentina de Insumos Implantáveis e Equipamentos Médicos (CADIEM). Ela destacou o impacto de avanços como monitoramento remoto, robótica em cirurgia e IA. Da perspectiva do paciente, Silvia Fernández Barrio, fundadora e presidente da Associação Civil de Pacientes com Psoríase (AEPSO), destacou o trabalho da organização na coleta de dados.
Ressoando as discussões do dia, a Dra. Eva Jané Llopis, representante da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) na Argentina, destacou a necessidade de colaboração entre todas as partes interessadas para garantir o acesso equitativo e melhorar o atendimento. Ela insistiu no fortalecimento das parcerias público-privadas e na melhoria da interoperabilidade para eliminar as lacunas digitais e promover um atendimento mais eficiente e humano.
Por fim, o Dr. Mario Iván Lugones, Ministro da Saúde da Argentina, encerrou o dia enfatizando a necessidade de uma mudança de paradigma no sistema de saúde, com foco mais na prevenção do que no tratamento de doenças. Ele também observou que o Estado deve permitir que o setor privado desenvolva soluções inovadoras sem interferência, instando os atores do setor a serem disruptivos na busca por novas estratégias. “Peço que sejam disruptivos. Não há limites. Pensem. Cresçam. Sejam grandiosos. Desenvolvam-se”, concluiu.
Educar para Inovar
Atentos à formação das novas gerações de profissionais de saúde, diversos líderes acadêmicos destacaram a importância de ter um espaço como o HIMSS Executive Summit a fim de promover “o intercâmbio entre empresas, academia e setor público para continuar construindo liderança no ecossistema de saúde”, como disse Daniel Maceira, PhD, Diretor do MBA em Saúde da Universidade de San Andrés e Pesquisador do CONICET-CEDES.
Por sua vez, Juan Vidaguren, reitor da Escola de Administração e Tecnologia do Instituto Tecnológico de Buenos Aires (ITBA), destacou o impacto direto da transformação digital na qualidade de vida e a importância da colaboração para o fortalecimento do setor, enquanto Gabriel Novick, diretor acadêmico do Executive MBA em Saúde da IAE Business School e diretor médico corporativo do Swiss Medical Group, enfatizou que “o verdadeiro intuito da transformação digital deve ser melhorar a vida das pessoas, promovendo inovação significativa e ideias desafiadoras em direção a um futuro com propósito”. Para isso, as instituições buscam formar profissionais responsáveis, capazes de liderar a mudança em direção a um futuro cada vez mais inovador.
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